Quando não acreditar em uma mulher se torna parte do sistema

Ilustração de uma balança desequilibrada, com uma pilha de papéis de um lado e um coração do outro

Há experiências femininas que chegam ao consultório, à família e ao trabalho acompanhadas por uma segunda dor.

A primeira é o que está acontecendo no corpo, na relação ou na vida.

A segunda é não ser levada a sério.

A mulher diz que algo mudou. Que o cansaço não é habitual. Que a dor persiste. Que a memória parece diferente. Que a relação a está ferindo. Que o trabalho se tornou insustentável.

E frequentemente recebe, antes de escuta, uma interpretação pronta: exagero, ansiedade, sensibilidade, idade, estresse.

Existe algo particularmente difícil em sofrer e, ao mesmo tempo, precisar convencer alguém de que o próprio sofrimento existe.

Quando a descrença deixa de ser individual

A renovação da Estratégia de Saúde da Mulher na Inglaterra deu nome institucional a uma parte desse fenômeno: misoginia médica.

A expressão não significa que todo profissional de saúde seja individualmente misógino. Ela procura descrever algo mais complexo: padrões históricos e institucionais nos quais sintomas, relatos e necessidades das mulheres podem receber menos credibilidade ou ser interpretados a partir de pressupostos de gênero.

Durante muito tempo, o corpo masculino funcionou como referência predominante em diferentes áreas da medicina e da pesquisa científica. Ao mesmo tempo, experiências especificamente femininas foram frequentemente pouco investigadas, normalizadas ou tratadas como inevitáveis.

Alguns exemplos: dor menstrual incapacitante, sintomas relacionados à endometriose, alterações do climatério, experiências de dor persistente, mudanças cognitivas ou emocionais… e a lista não acaba por aqui.

Não se trata de afirmar que toda demora diagnóstica ou toda discordância médica decorra de preconceito de gênero. Medicina é uma prática complexa, sintomas podem ter múltiplas causas e diagnósticos exigem investigação.

Mas reconhecer essa complexidade não nos impede de perguntar se existem padrões na maneira como determinadas experiências são escutadas.

Isso porque escutar também é atribuir credibilidade.

A mulher adulta e a complexidade de não caber em uma única explicação

Essa discussão me parece especialmente importante quando pensamos nas mulheres entre aproximadamente 35 e 55 anos.

É uma fase em que muitas dimensões da vida podem se movimentar simultaneamente.

O corpo começa a apresentar transformações. O climatério pode surgir. Os filhos crescem. Os pais envelhecem. Relações antigas atravessam mudanças. A sexualidade pode assumir outras formas. O trabalho pode deixar de produzir o mesmo sentido. Algumas mulheres alcançam posições profissionais pelas quais trabalharam durante décadas justamente quando começam a se perguntar se ainda desejam permanecer nelas.

Não existe uma experiência feminina única dessa fase da vida.

E talvez seja exatamente por isso que respostas rápidas sejam tão insuficientes.

O climatério pode estar presente, mas nem tudo é climatério.

O sofrimento emocional também pode existir, mas nem todo sintoma deve ser reduzido a ele.

E ainda o estresse pode produzir manifestações corporais importantes. Mas reconhecer a relação entre corpo e psique não significa concluir que aquilo que uma mulher sente “está apenas na cabeça dela”.

Escutar uma mulher adulta exige sustentar essa complexidade.

Talvez o problema esteja justamente aí: quando uma explicação, em vez de criar a oportunidade de compreender melhor o que está acontecendo, acaba encerrando a conversa antes do tempo.

O que acontece quando precisamos provar aquilo que sentimos?

Há também uma dimensão psicológica menos visível nessa experiência.

Quando alguém precisa provar repetidamente que aquilo que sente é real, não está apenas enfrentando a dúvida do outro — pode começar a construir uma dúvida sobre si.

“Será que estou exagerando?”

“Será que deveria suportar mais?”

“Será que estou sendo sensível demais?”

“Será que isso é realmente tão grave?”

A dúvida externa pode, aos poucos, tornar-se uma forma de vigilância interna. E aquilo que começou no olhar do outro passa a influenciar a maneira como essa mulher olha para si mesma — num movimento que pode se aproximar do que a Psicologia chama de profecia autorrealizadora.

A mulher aprende então a organizar melhor o que vai dizer antes de dizer. Minimiza desconfortos. Espera um pouco mais. Procura não parecer difícil. Tenta chegar à conversa já munida de argumentos suficientes para justificar aquilo que sente.

E há algo profundamente desgastante nisso.

Porque existe uma diferença entre questionar a própria percepção — algo necessário ao amadurecimento — e aprender a desconfiar sistematicamente dela.

Isso não acontece apenas na medicina

Certamente essa discussão ultrapassa o consultório médico.

O mesmo mecanismo aparece em outros espaços da vida.

Uma mulher identifica um risco em uma reunião e é chamada de alarmista.

Estabelece um limite e é percebida como inflexível.

Expressa uma discordância com firmeza e precisa administrar não apenas o conteúdo do que está dizendo, mas também a possibilidade de ser considerada agressiva.

Relata sobrecarga no trabalho e recebe orientações sobre organização pessoal para um problema que talvez esteja sendo produzido pela própria estrutura do trabalho.

Diz que uma relação está lhe fazendo mal e escuta que talvez esteja exigindo demais.

Em todos esses casos, situações muito diferentes podem compartilhar uma pergunta silenciosa:

quanto de credibilidade atribuímos à experiência de uma mulher quando aquilo que ela diz produz desconforto, conflito ou exige alguma mudança de quem a escuta?

Credibilidade também é uma forma de poder

Costumamos pensar poder em termos de posição, dinheiro, autoridade formal ou capacidade de decisão.

Mas existe uma forma mais sutil de poder: poder definir qual versão da realidade será considerada legítima.

Quem precisa constantemente apresentar mais evidências, escolher melhor as palavras, moderar o tom e provar que não está exagerando ocupa uma posição diferente de quem é presumidamente considerado confiável.

Por isso, autonomia não significa apenas aprender a falar.

Significa também encontrar relações e instituições capazes de escutar sem transformar toda experiência feminina em excesso emocional.

E significa preservar uma aliança consigo mesma. Aceitando que nossa percepção também pode estar incompleta — sem concluir automaticamente que está errada.

E não entregar imediatamente a terceiros toda a autoridade sobre aquilo que percebemos no próprio corpo e na própria vida.

A maturidade talvez não esteja em acreditar cegamente em tudo aquilo que sentimos.

Está em conseguir permanecer suficientemente próximas de nós mesmas para investigar o que sentimos sem nos abandonar durante o processo.

Porque existem dúvidas que nos ajudam a enxergar melhor.

E existem dúvidas que, repetidas durante tempo suficiente, nos ensinam a ocupar menos espaço.

Uma das tarefas mais importantes da vida adulta é aprender a distinguir umas das outras.

Em quais espaços da sua vida você ainda precisa provar demais para ser ouvida?


Fontes

Department of Health and Social Care. Renewed Women’s Health Strategy for England. Governo do Reino Unido, 15 abr. 2026.