Existe uma violência silenciosa que não começa necessariamente com uma agressão.
Às vezes, começa com uma dúvida.
“Será que foi isso mesmo?”
“Você não está exagerando?”
“Talvez esteja levando para o lado pessoal.”
São frases aparentemente pequenas. Isoladamente, podem até fazer parte de uma conversa legítima. Afinal, todos nós podemos interpretar uma situação de maneira incompleta, rever uma percepção ou compreender um acontecimento de outro modo.
O problema aparece quando a dúvida deixa de abrir espaço para compreender melhor o que aconteceu e passa, repetidamente, a desautorizar aquilo que alguém percebe, sente ou tenta nomear.
Quando isso acontece dentro de relações, ambientes profissionais ou instituições, algo mais profundo pode começar a se instalar: a pessoa não precisa mais apenas convencer o outro. Passa também a desconfiar de si.
E, para muitas mulheres adultas, esse processo encontra um terreno particularmente complexo.
Quando ser forte também dificulta reconhecer o próprio limite
Não falo necessariamente de mulheres que têm dificuldade de se posicionar.
Muitas vezes acontece justamente com mulheres competentes, responsáveis, autônomas, acostumadas a resolver problemas e a sustentar outras pessoas.
Mulheres que construíram parte importante de sua identidade em torno da capacidade de dar conta.
Há potência nisso.
O problema não é a força. É quando ela se torna o único modo disponível de existir.
Porque quem aprendeu durante muito tempo que consegue suportar pode demorar mais para reconhecer quando alguma coisa deixou de ser suportável.
Pode tentar mais uma vez.
Adaptar-se mais um pouco.
Encontrar uma maneira melhor de administrar a situação.
Perguntar a si mesma se não deveria ser mais tolerante, mais resiliente, menos sensível.
Até que uma pergunta importante se perde no caminho:
por que a capacidade de suportar deveria determinar aquilo que precisamos continuar suportando?
Ter um canal de escuta não significa necessariamente ser escutada
No trabalho, essa questão pode aparecer diante de uma liderança abusiva, de uma sobrecarga permanente, de situações de assédio ou de relações profissionais que, pouco a pouco, se tornam psicologicamente insustentáveis.
A organização pode possuir um canal de denúncia. Pode ter uma política. Pode ter um procedimento formal. Mas existe escuta?
Uma organização pode possuir todos os mecanismos formais e, ainda assim, produzir silêncio.
Isso acontece, por exemplo, quando a investigação se concentra mais no comportamento de quem falou do que no padrão que está sendo relatado.
Quando a primeira pergunta não é sobre aquilo que aconteceu, mas sobre como a pessoa reagiu.
Quando alguém que sempre suportou tudo finalmente diz “não consigo mais” e recebe como resposta uma aula sobre resiliência.
Há uma inversão importante aí.
Uma situação produz sofrimento, mas a resposta se concentra exclusivamente em aumentar a capacidade individual de suportá-la.
É claro que recursos emocionais, estratégias de enfrentamento e capacidade de adaptação são importantes. O problema começa quando utilizamos essas ferramentas para tornar uma pessoa mais adaptável a condições que também deveriam ser questionadas.
Nem todo sofrimento é um problema de adaptação individual
Essa distinção é especialmente importante quando falamos de saúde psicossocial no trabalho.
Nem todo sofrimento pode ser compreendido apenas a partir das características individuais de quem sofre.
As condições em que o trabalho acontece também importam.
Relações de poder importam.
Sobrecarga, falta de autonomia, ausência de reconhecimento, ambiguidade de papéis, conflitos persistentes e culturas que punem quem estabelece limites também participam da experiência psicológica de quem trabalha.
Por isso, saúde psicossocial não pode significar apenas ensinar pessoas a tolerar melhor ambientes adoecedores.
Existe uma pergunta anterior:
o que, nesse ambiente, está exigindo tanto que as pessoas precisem continuamente aprender a suportá-lo?
Deslocar a pergunta não elimina a responsabilidade individual. Apenas impede que toda a responsabilidade pelo sofrimento seja colocada sobre quem o experimenta.
O que acontece quando a dúvida do outro começa a morar dentro de nós?
Talvez essa seja uma das consequências mais delicadas de precisar provar repetidamente que aquilo que sentimos é real.
Depois de algum tempo, já não precisamos que alguém pergunte se estamos exagerando.
Nós mesmas podemos começar a perguntar.
“Será que estou sendo sensível demais?”
“Será que deveria suportar mais?”
“Será que estou interpretando errado?”
“Será que isso é realmente tão grave?”
A dúvida externa pode se transformar em vigilância interna.
E aquilo que começou no olhar do outro passa a participar da maneira como nos enxergamos.
É importante fazer uma distinção: questionar a própria percepção faz parte do amadurecimento. Nenhum de nós possui uma leitura absoluta da realidade.
Mas existe uma diferença entre examinar aquilo que sentimos e aprender sistematicamente a desautorizar aquilo que sentimos.
Uma coisa amplia a consciência.
A outra pode nos afastar dela.
Na maturidade, a força talvez precise assumir outras formas
Na meia-idade, essa questão pode ganhar novas camadas.
O corpo muda. As relações mudam. Os filhos podem crescer. Os pais podem começar a precisar de cuidados. A posição profissional se transforma. Algumas conquistas deixam de ter o mesmo significado. Prioridades que pareciam definitivas começam a ser revistas.
Aquilo que durante anos foi sustentado pela força pode começar a exigir outra qualidade de presença.
E talvez exista algo particularmente desconcertante nesse momento: perceber que uma estratégia que nos trouxe até aqui já não responde da mesma maneira à vida que temos agora.
Suportar pode ter sido necessário.
Dar conta pode ter sido motivo de orgulho.
Resolver pode ter sido uma competência importante.
Nada disso precisa ser negado.
Mas amadurecer talvez também envolva perceber quando uma qualidade se tornou rígida demais para continuar nos servindo.
Na Psicologia Analítica, aquilo que permanece fora da consciência não deixa simplesmente de existir. Continua participando da vida psíquica, muitas vezes aparecendo nas relações, nos conflitos que se repetem, no corpo, nos silêncios ou nas escolhas que adiamos.
Reconhecer um limite, portanto, não significa necessariamente fracassar diante dele.
Às vezes significa finalmente torná-lo consciente.
Recuperar a própria autoridade interna
Nesse sentido, amadurecer talvez seja também recuperar uma espécie de autoridade interna.
Não a certeza de que estamos sempre certas.
Mas a capacidade de permanecer suficientemente próximas daquilo que percebemos para não abandoná-lo antes de compreendê-lo.
A capacidade de dizer:
“Eu sei o que estou percebendo.”
“Eu posso investigar melhor o que estou sentindo.”
“Eu posso pedir ajuda.”
“Eu posso rever minha interpretação sem precisar negar minha experiência.”
“Eu não preciso suportar tudo para continuar sendo forte.”
Há uma diferença enorme entre aprender a lidar com as dificuldades inevitáveis da vida e desaparecer dentro delas.
Talvez parte da maturidade esteja justamente em reconhecer essa diferença.
Porque força não é apenas permanecer.
Às vezes, força também é perceber que alguma coisa precisa mudar.
E confiar suficientemente em si para começar a escutar o que essa percepção está tentando dizer.
Em quais lugares da sua vida você ainda sente que precisa provar demais para ser levada a sério?
Fontes
JUNG, C. G. A natureza da psique. Obras Completas de C. G. Jung, v. VIII/2, § 382. 19. reimpr. Petrópolis: Vozes, 2022.
