Existem mudanças que não alteram apenas o corpo.
Elas modificam nossa relação com o tempo, com o trabalho e com a imagem que construímos de nós mesmas.
O climatério pode ser uma dessas transições.
Para algumas mulheres, ele acontece de maneira relativamente discreta. Para outras, sintomas como alterações no sono, fadiga, ondas de calor e dificuldades de concentração passam a exigir um esforço diário que quase ninguém percebe.
A mulher continua trabalhando.
Continua tomando decisões.
Continua conduzindo equipes, cuidando de pessoas e respondendo às expectativas que se acumularam ao redor dela.
Mas talvez esteja gastando muito mais energia para sustentar uma aparência de normalidade.
Um estudo publicado recentemente no Journal of Organizational Behavior acompanhou mulheres em posições de liderança e identificou uma dinâmica particularmente interessante: sintomas mais intensos estavam associados à sensação de esgotamento de recursos psicológicos e, em algumas participantes, à nostalgia de quem elas eram antes dessa transição.
Não se trata apenas de sentir saudade de uma fase da vida.
Pode existir uma comparação silenciosa entre a mulher do presente e uma versão anterior de si mesma — aquela que parecia ter mais energia, maior previsibilidade corporal ou mais facilidade para corresponder às demandas.
Essa nostalgia tem um caráter ambivalente.
Em alguns casos, o contato com a própria vulnerabilidade pode ampliar a empatia da líder pelas dificuldades de outras pessoas. Em outros, pode produzir retraimento: uma tentativa de preservar os recursos que ainda restam.
O estudo é cuidadoso ao não apresentar o climatério como um destino psicológico universal. As experiências são diversas, atravessadas pela intensidade dos sintomas, pelas condições de trabalho, pelas relações e pelo contexto cultural.
Ainda assim, ele ilumina uma questão importante.
Muitas mulheres chegam a posições de responsabilidade justamente no período em que seu corpo começa a exigir novas formas de cuidado e negociação.
Elas alcançam reconhecimento profissional, mas encontram organizações construídas em torno de um corpo abstrato: sempre disponível, previsível, silencioso e aparentemente imune ao tempo.
Nesse contexto, admitir cansaço pode ser percebido como perda de autoridade.
Pedir flexibilidade pode parecer falta de comprometimento.
E reconhecer uma mudança no próprio funcionamento pode ser vivido como ameaça à identidade profissional construída ao longo de décadas.
Talvez por isso tantas mulheres tentem continuar liderando exatamente da mesma forma, mesmo quando alguma coisa dentro delas já pede outra relação com o ritmo.
Mas a maturidade não precisa ser uma tentativa permanente de reproduzir a mulher que existia antes.
Uma identidade adulta não se preserva permanecendo intacta.
Ela se preserva quando consegue integrar aquilo que mudou.
Na Psicologia Analítica, a construção da identidade não termina quando alcançamos estabilidade profissional ou afetiva. Em diferentes momentos da vida, somos chamadas a rever as imagens com as quais nos identificamos — inclusive a imagem da mulher incansável, capaz de sustentar tudo sem precisar ser sustentada.
Isso não significa romantizar sintomas ou transformar sofrimento em “oportunidade de crescimento”.
Sintomas importantes merecem avaliação e cuidado adequados.
Significa apenas reconhecer que o corpo não é um obstáculo externo à nossa identidade. Ele participa dela.
E talvez exista uma diferença decisiva entre perder uma versão de nós mesmas e perder a nós mesmas.
A mulher que fomos continua fazendo parte da nossa história. Mas ela não precisa funcionar como uma medida cruel contra a mulher que estamos nos tornando.
Liderar na maturidade pode exigir menos esforço para parecer invulnerável e mais liberdade para reorganizar presença, limites e prioridades.
Não porque a mulher se tornou menos capaz.
Mas porque já não deseja pagar qualquer preço para continuar parecendo a mesma.
Que versão anterior de você ainda está sendo usada como parâmetro para julgar a mulher que você é hoje?
Fontes
EPITROPAKI, O.; KAKARIKA, M. “Menopausal, Depleted, and Nostalgic”: The Bittersweet Effects of Menopause for Women Leaders. Journal of Organizational Behavior, 2026. DOI: 10.1002/job.70126.
JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Obras Completas de C. G. Jung, v. VII/2, § 266. Petrópolis: Vozes. 12a reimpressão, 2022.
