Quando mudar de carreira não é começar de novo

Ilustração de prédio com uma única janela acesa e uma prancheta de checklist

Existe uma ideia bastante arraigada sobre a vida profissional: primeiro construímos, depois consolidamos.

Pela lógica que ainda orienta boa parte da nossa vida profissional, aos 40 ou 50 anos seria esperado já saber quem somos — e seguir adiante com aquilo que construímos.

Mas talvez a meia-idade não seja apenas um momento de consolidação. Pode ser também um momento de revisão.

Um estudo qualitativo publicado em 2026 no Journal of Career Development investigou as experiências de 27 mulheres entre 39 e 57 anos em mudanças profissionais orientadas por propósito.

Nas narrativas dessas mulheres, acontecimentos como divórcio, menopausa, luto e demissão apareceram como possíveis momentos de ruptura, capazes de provocar uma revisão das prioridades e da própria trajetória profissional.

O interessante é que não apareceu uma única direção para a maturidade profissional.

Algumas mulheres desejavam continuar crescendo. Outras falavam em novos projetos, empreendedorismo, redução do ritmo ou trabalhos que produzissem maior realização pessoal. Ou seja, apareceu movimento.

E isso me interessa porque ainda existe uma tendência de interpretar mudanças nessa fase da vida como desistência.

Como se diminuir o ritmo significasse perder ambição. Mudar de área fosse jogar fora uma trajetória. Ou desejar outra vida profissional depois dos 45 fosse admitir que as escolhas anteriores estavam erradas.

Talvez seja justamente o contrário.

Há mudanças que só conseguimos fazer porque alguma coisa já foi construída.

A mulher que muda aos 45 não chega ao novo lugar com 20.

Ela leva experiência.

Critério.

Conhecimento sobre o que faz bem — e sobre o que já não está disposta a suportar.

Leva também responsabilidades, compromissos financeiros e uma consciência do tempo que provavelmente não tinha no início da vida profissional.

Por isso, mudar nessa fase pode ser simultaneamente mais difícil e mais consciente.

Uma segunda pesquisa, publicada nos Cadernos EBAPE.BR em 2026, amplia essa questão. A partir de 26 entrevistas com profissionais de meia-idade, homens e mulheres, os pesquisadores identificaram diferentes dimensões da mobilidade profissional — entre elas movimentos físicos, psicológicos, identitários, corporais, temporais e relacionais.

Talvez seja essa ideia de mobilidade de identidade que mais me interessa.

Porque carreira nunca é apenas aquilo que fazemos.

Depois de muitos anos, ela também participa da resposta à pergunta: “Quem sou eu?”

Em grande medida, somos apresentadas pela profissão e reconhecidas por aquilo que sabemos fazer.

Construímos relações, autonomia, reconhecimento e uma imagem de competência em torno desse lugar.

Então, quando surge o desejo de mudar, não estamos necessariamente negociando apenas um cargo.

Às vezes estamos mexendo em uma identidade inteira.

E existe uma contradição delicada nisso.

Uma mulher pode ser profundamente grata pela carreira que construiu e não desejar continuar nela da mesma maneira.

Pode reconhecer tudo o que conquistou e sentir que alguma coisa terminou.

Pode ser competente em um lugar que já não lhe serve.

Nem toda vontade de partir nasce do fracasso. Algumas nascem justamente depois do sucesso.

E talvez exista algo profundamente humano naquele intervalo em que a identidade anterior já não parece suficiente, mas a nova ainda não está completamente formada.

Já não sou exatamente aquela.

Ainda não sei completamente quem serei.

Na Psicologia Analítica, a segunda metade da vida pode nos confrontar justamente com aspectos de nós mesmas que receberam menos espaço enquanto construíamos nossa adaptação ao mundo.

Durante décadas, uma mulher pode ter sido eficiente, responsável, produtiva, reconhecida.

Tudo isso pode continuar verdadeiro.

Mas talvez outras partes dela também tenham esperado.

Criatividade. Curiosidade. Desejo de autonomia. Necessidade de sentido.

Uma forma diferente de usar aquilo que aprendeu.

Isso não significa que toda mulher deva reinventar a carreira aos 45.

Para algumas, maturidade profissional significará aprofundar o caminho escolhido.

Para outras, ocupar mais espaço.

Para outras, sair.

E para muitas, talvez não exista possibilidade financeira ou familiar de realizar imediatamente a mudança desejada.

É importante não transformar reinvenção profissional em mais uma exigência sobre mulheres que já vivem cercadas de exigências.

Mas existe uma diferença entre não poder mudar agora e acreditar que já é tarde demais para desejar outra coisa.

Talvez uma carreira longa não precise ser uma linha reta para ser coerente.

Porque coerência também pode significar permitir que nossas escolhas mudem quando nós mudamos.

A experiência acumulada não desaparece quando escolhemos outro caminho.

Ela muda de lugar.

Aos 20, frequentemente perguntamos: “O que eu quero construir?”

Em algum momento da maturidade, pode surgir uma pergunta diferente:

“Do que construí até aqui, o que ainda quero levar comigo?”


Fontes

Smit, M.; Malik, S. Purpose-led Career Change and Well-being: The Experience of Midlife Women. Journal of Career Development, 2026.
Estudo no Journal of Career Development

Mobilidades de carreira na meia-idade: entre forças de atração e resistência. Cadernos EBAPE.BR, 2026. Artigo no SciELO

JUNG, C. G. As etapas da vida. In: A natureza da psique. Obras Completas de C. G. Jung, v. VIII/2, §§ 778–786. 19. reimpr. Petrópolis: Vozes, 2022.