As eleições terminaram, mas as manifestações de hostilidade parecem não ter chegado ao fim. As acusações e a dificuldade de reconhecer legitimidade na posição contrária continuam presentes, mesmo depois de conhecido o resultado.
Ao observar esse movimento, algo me chamou especialmente a atenção: escolhemos um lado porque acreditamos em determinado projeto de país. Mas, em algum momento, a necessidade de defender nossa escolha parece se tornar maior do que o próprio propósito que nos levou a fazê-la.
Mais do que o resultado de uma eleição, fiquei pensando no que acontece conosco quando a posição que ocupamos passa a ser mais importante do que aquilo que desejamos construir.
Quando a posição se torna maior que o propósito
Escolher faz parte da vida. Nossas escolhas expressam valores, convicções e esperanças. Na política, não poderia ser diferente.
Mas existe uma diferença importante entre sustentar uma convicção e se identificar completamente com ela.
Quando nossas ideias passam a definir quem somos, qualquer possibilidade de questionamento pode ser vivida como uma ameaça à nossa própria identidade.
O outro deixa de ser alguém com uma história, valores e razões próprias. Torna-se apenas o representante daquilo que rejeitamos.
E, pouco a pouco, a necessidade de estar certo pode ocupar o lugar do desejo de construir algo melhor.
Na Psicologia Analítica, Jung nos convida a refletir sobre a influência do espírito da época, conjunto de ideias, valores e exigências que atravessam determinado momento histórico.
Essa reflexão merece uma análise mais aprofundada.
Somos constantemente convidados a reagir, concordar, discordar e demonstrar pertencimento. As informações chegam acompanhadas de interpretações e emoções que, muitas vezes, antecipam nossa própria reflexão. Mesmo sem perceber, somos constantemente influenciados pelo coletivo.
Em meio a tantas vozes, podemos perder o contato com a nossa.
Talvez um dos maiores desafios da consciência seja justamente perceber quando estamos escolhendo a partir de nossos valores e quando estamos apenas respondendo ao movimento coletivo que nos envolve.
Reconciliar não significa deixar de escolher
A reconciliação costuma ser confundida com a necessidade de concordar, ceder ou abandonar nossas convicções.
Mas não é disso que estou falando.
Reconciliar não significa apagar diferenças, relativizar injustiças ou deixar de reconhecer aquilo que precisa ser transformado.
Significa compreender que a existência de posições contrárias não precisa nos condenar à impossibilidade de convivência.
O caminho do meio não é necessariamente o lugar de quem não escolhe. Pode ser o lugar de quem reconhece a complexidade da vida e compreende que nenhuma perspectiva isolada é capaz de abarcar toda a realidade.
É possível sustentar uma posição com firmeza sem transformar o outro em inimigo.
É possível discordar profundamente e, ainda assim, preservar o respeito.
E é possível reconhecer um resultado eleitoral sem abandonar o compromisso de acompanhar, questionar e participar dos caminhos que serão construídos a partir dele.
Afinal, o objetivo que nos levou a escolher continua existindo depois da escolha.
O desejo de um país mais justo, digno e humano não deveria depender exclusivamente de quem ocupa o poder.
O feminino e a possibilidade de reconstruir pontes
É nesse ponto que gostaria de dirigir uma reflexão especialmente às mulheres.
Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés explora a importância de recuperarmos nossa natureza instintiva, representada simbolicamente pela Mulher Selvagem: uma dimensão profunda da psique feminina associada à vitalidade, à intuição e à capacidade de reconhecer aquilo que sustenta a vida.
Não se trata de um feminino frágil, passivo ou permanentemente conciliador.
Ao contrário, é um feminino que sabe reconhecer perigos, estabelecer limites, proteger aquilo que importa e distinguir o que nutre daquilo que ameaça a existência.
Durante muito tempo, associamos o feminino à obrigação de acolher, ceder e preservar a harmonia, mesmo quando isso significava silenciar a própria voz.
Mas a reconciliação de que falo não nasce do silenciamento.
Ela nasce da consciência.
Da capacidade de reconhecer que podemos defender nossas ideias sem perder a sensibilidade diante da experiência do outro.
De compreender que estabelecer vínculos não exige renunciar à própria identidade.
E de perceber que a verdadeira força não se manifesta apenas na capacidade de enfrentar, mas também na coragem de interromper aquilo que já não contribui para a vida.
Não acredito que caiba às mulheres a responsabilidade de reparar, sozinhas, as divisões de uma sociedade. Mas acredito que podemos oferecer uma contribuição importante quando recuperamos nossa capacidade de criar relações sem apagar diferenças.
Esse é um dos sentidos mais profundos da força do feminino que destaco aqui: a possibilidade de acolher a complexidade, reconhecer os opostos e favorecer aquilo que nos aproxima da totalidade.
Uma potência que não pertence exclusivamente às mulheres, mas que podemos escolher expressar em nossa maneira de participar do mundo.
Depois da escolha, permanece o propósito
Penso em quantas famílias deixaram de conversar, quantas amizades se fragilizaram e quantas relações passaram a ser medidas pela concordância política.
O que começou como uma divergência sobre projetos de país, em muitos casos, atravessou os espaços mais íntimos da convivência.
Agora, com a disputa encerrada, permanece uma responsabilidade que não pertence apenas aos vencedores.
Reconhecer um resultado democrático não significa concordar com todas as decisões de quem venceu. Da mesma forma, manter uma posição crítica não exige desejar o fracasso de um governo.
O Brasil não deixa de ser nosso quando o candidato que escolhemos perde. E não passa a ser exclusivamente nosso quando ele vence.
Talvez seja esse o momento de nos perguntarmos se estamos dispostos a colocar o propósito novamente acima da posição.
De baixar a guarda, não para abandonar nossas convicções, mas para recuperar a capacidade de escutar.
O Brasil continua sendo a casa de todos nós.
E uma casa não se sustenta quando seus habitantes passam a enxergar uns aos outros apenas como adversários.
Faço, então, um convite a nós, mulheres.
Que possamos recuperar a força de nossos instintos, a sensibilidade de nosso olhar e a coragem de construir pontes onde o diálogo ainda for possível.
Que não confundamos firmeza com hostilidade, nem reconciliação com submissão.
Que sejamos capazes de reconhecer o momento de confrontar, mas também o momento de reconstruir.
E, sobretudo, que não percamos de vista aquilo que nos mobilizou desde o início.
Porque, antes de escolhermos um lado, havia um desejo que nos aproximava: o de viver em um país melhor.
Talvez a pergunta que agora precisamos fazer não seja mais quem venceu, mas se conseguiremos superar a necessidade de vencer uns aos outros para que o Brasil possa avançar.
Referências
JUNG, C. G. Presente e Futuro. Obras Completas, vol. 10/1. Petrópolis: Vozes. Obra original de 1957.
ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que Correm com os Lobos. Editora Rocco, 2018.
