Voltar para casa também é reencontrar a si mesma

Ilustração de uma mulher sentada dentro de uma porta em arco iluminada, com uma pequena casa desenhada no peito

Há momentos em que estamos caminhando por um lugar qualquer e, de repente, percebemos algo diferente.

A paisagem parece mais bonita. O ar parece mais leve. As pessoas ao redor despertam nossa curiosidade. Há uma sensação de pertencimento que não conseguimos explicar inteiramente.

Nem sempre é o lugar que mudou.

Às vezes, mudou a maneira como estamos habitando a própria vida.

Em uma reflexão anterior, escrevi que o relacionamento a dois é, muitas vezes, uma volta para casa. Falei sobre como nossas primeiras experiências afetivas participam da maneira como amamos, buscamos intimidade e reconhecemos o outro.

Mas existe outra dimensão desse retorno que merece ser explorada.

E quando voltar para casa não significa reencontrar alguém, mas reencontrar a si mesma?

Quando nosso lugar depende de outra pessoa

Ao longo da vida, aprendemos a construir nosso lugar no mundo por meio das relações. Primeiro, na família. Depois, nas amizades, nos vínculos amorosos, na maternidade, no trabalho e nos diferentes espaços aos quais pertencemos.

É também pelo olhar do outro que começamos a nos reconhecer. Nossa identidade não se desenvolve isoladamente.

O problema pode surgir quando essa referência externa se torna tão predominante que começamos a perder contato com a própria experiência.

Há mulheres que, durante muitos anos, aprenderam a perceber o estado emocional de todos ao redor antes mesmo de reconhecer o próprio.

Sabem quando o companheiro está irritado, percebem quando os filhos precisam de atenção, identificam tensões no trabalho. Antecipam conflitos, organizam ambientes, administram expectativas.

E, aos poucos, podem descobrir que sua tranquilidade depende de uma condição difícil de sustentar: que todos estejam bem.

Quando o outro está feliz, sentem-se seguras. Quando ele se afasta, começam a se questionar. Quando alguém desaprova suas escolhas, aquilo que parecia uma certeza pode se transformar em dúvida.

Não porque sejam mulheres frágeis. Muitas vezes, justamente porque desenvolveram uma extraordinária capacidade de perceber e responder às necessidades alheias.

Mas existe uma diferença entre ser sensível ao outro e fazer do estado emocional dele o centro da própria existência.

O que acontece quando começamos a nos pertencer?

Para algumas mulheres, a maturidade traz uma experiência inesperada.

Depois de anos dedicados a construir relações, famílias, carreiras e projetos, surge uma necessidade que nem sempre sabemos nomear.

Não se trata necessariamente de abandonar o que foi construído, nem de deixar de amar. Trata-se de reconhecer que precisamos também estabelecer uma relação conosco.

Uma relação que não dependa exclusivamente de sermos desejadas, necessárias, reconhecidas ou aprovadas.

É possível gostar da própria companhia sem rejeitar a companhia de ninguém. Sentir falta de alguém sem experimentar sua ausência como uma perda de si. Amar profundamente e, ainda assim, preservar um espaço interior que não pertence à relação.

Essa descoberta pode ser especialmente significativa para mulheres que construíram sua identidade em torno do cuidado, da responsabilidade e da disponibilidade.

Durante muito tempo, pertencer pode ter significado ocupar um lugar importante na vida de alguém.

Agora surge outra possibilidade: pertencer também pode significar não precisar sair de si para continuar sendo amada.

O reencontro com aquilo que somos

Há momentos em que não perdemos exatamente uma relação, um lugar ou uma pessoa. O que percebemos ter perdido é o contato com alguma coisa profundamente nossa.

Em Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés explora, por meio de contos tradicionais e de uma leitura inspirada na Psicologia Analítica, o que acontece quando uma mulher se distancia de sua própria natureza para corresponder às exigências da vida.

No conto Pele de Foca, Pele da Alma, encontramos uma imagem especialmente significativa: a de uma mulher que perde sua pele de foca e, com ela, o acesso ao mundo ao qual pertence. Embora continue vivendo, amando e desempenhando seus papéis, algo essencial começa a lhe faltar.

A pele representa simbolicamente a ligação com sua natureza mais profunda, aquilo que não pode ser inteiramente substituído pelos vínculos, pelas responsabilidades ou pelas expectativas dos outros.

Essa imagem nos convida a pensar em quantas mulheres vão deixando pequenas partes de si pelo caminho.

Não necessariamente por imposição. Muitas vezes por amor, por responsabilidade, pelo desejo de pertencer ou porque a vida foi exigindo adaptações sucessivas.

Até que surge uma necessidade difícil de ignorar: recuperar o contato com aquilo que lhes pertence.

Na Psicologia Analítica, Jung chamou de individuação o processo pelo qual vamos descobrindo quem somos para além dos papéis que desempenhamos e das expectativas que procuramos atender. É um caminho de autoconhecimento que nos aproxima de aspectos de nós mesmas que, ao longo da vida, podem ter sido esquecidos, deixados de lado ou pouco reconhecidos.

Não se trata de abandonar os vínculos, mas de reconhecer que existe uma dimensão de nós mesmas que também precisa ser escutada e preservada.

Podemos construir uma vida inteira ao redor de outras pessoas e, ainda assim, precisar encontrar um lugar onde possamos existir sem desempenhar nenhum papel.

É nesse sentido que voltar para casa ganha outra profundidade.

Porque há uma diferença entre ter um lugar no mundo e sentir que pertencemos à vida que estamos vivendo.

O corpo como primeira morada

Há algo nessa reflexão que me parece particularmente importante para a mulher adulta: o lugar do corpo.

Durante boa parte da vida, o corpo feminino pode ser vivido como algo que precisa corresponder a padrões de beleza, expectativas de disponibilidade, exigências de produtividade, ao desejo do outro e à imagem que construímos de nós mesmas.

Na maturidade, as transformações corporais podem tornar mais evidente uma pergunta que talvez estivesse presente havia muito tempo:

Estou vivendo no meu corpo ou apenas tentando fazer com que ele corresponda à vida que esperam de mim?

Pensar o corpo como primeira morada não significa idealizá-lo ou exigir que toda mulher se sinta confortável consigo em todos os momentos.

Há dias de cansaço, desconforto, estranhamento e sofrimento. Existem condições físicas e emocionais que exigem cuidado, e não uma interpretação simbólica.

Mas o corpo é também o lugar concreto a partir do qual experimentamos o mundo.

É nele que sentimos a alegria de uma caminhada, o prazer de um encontro, o desconforto diante de um limite ultrapassado, o descanso depois de um dia difícil.

Não habitamos a vida de fora do corpo.

Talvez parte do amadurecimento envolva deixar de tratá-lo apenas como algo a ser corrigido, administrado ou apresentado aos outros.

O corpo não é somente aquilo que mostramos ao mundo. É também o lugar a partir do qual o mundo nos acontece.

Estar sozinha é diferente de sentir-se em casa

Uma mulher pode estar cercada de pessoas e, ainda assim, experimentar uma profunda distância de si mesma.

Pode também estar sozinha e perceber que sua própria companhia já não lhe parece um lugar estranho.

Essa experiência não significa que a solidão seja sempre desejável ou que a independência emocional deva se transformar em mais uma obrigação.

Precisamos de vínculos, de cuidado, de intimidade e de reconhecimento.

Uma mulher pode estar profundamente conectada consigo e continuar desejando construir uma relação amorosa, compartilhar a vida e ser acolhida em suas fragilidades.

A diferença não está em deixar de precisar das pessoas.

Está em reconhecer que o outro pode participar da nossa felicidade sem precisar ser o único responsável por ela.

Quando não entregamos ao outro toda a responsabilidade pela nossa existência emocional, abre-se a possibilidade de encontrá-lo com mais liberdade.

Não para que ele nos complete como se fôssemos uma parte faltante, mas para que duas histórias possam se aproximar sem que uma precise desaparecer dentro da outra.

A casa que podemos levar conosco

Voltamos, então, à imagem da casa.

Durante a infância, ela pode representar o lugar onde aprendemos nossas primeiras formas de pertencimento. Na vida adulta, tentamos reencontrá-la nas relações amorosas, nas famílias que construímos, nas cidades onde escolhemos viver e nos espaços em que somos reconhecidas.

Tudo isso importa.

Os lugares guardam memórias. As pessoas nos transformam. As relações podem oferecer experiências profundas de acolhimento e segurança.

Mas existe uma dimensão do pertencimento que não depende exclusivamente de permanecer no mesmo lugar ou ao lado das mesmas pessoas.

Ela se constrói na relação que estabelecemos conosco.

Na possibilidade de reconhecer o próprio desejo sem precisar justificá-lo imediatamente. Na capacidade de estar sozinha sem transformar a solidão em prova de desamor. Na liberdade de perceber a beleza de um lugar sem que essa beleza dependa inteiramente de quem está ao nosso lado.

E, sobretudo, na experiência de não precisar abandonar a si mesma para preservar um vínculo.

Nem toda volta para casa é um retorno ao passado. Algumas são um encontro, talvez pela primeira vez, com a pessoa que estamos nos tornando.

Podemos continuar construindo casas, cultivando relações e desejando encontros. Podemos mudar de cidade, atravessar separações, começar novos projetos e descobrir outras maneiras de amar.

Sem esquecer que também precisamos aprender a habitar a própria existência.

Porque voltar para casa também pode ser isto: descobrir que o nosso lugar é, antes de tudo, dentro de nós mesmas.


Referências

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco. Especialmente o capítulo dedicado ao conto Pele de Foca, Pele da Alma.

JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. In: Dois escritos sobre Psicologia Analítica. Obras Completas de C. G. Jung, v. VII/2. Petrópolis: Vozes. Especialmente §§ 266–269.